Caderno Muito: Arte a céu aberto

Durante duas semanas, a partir desta segunda-feira, 13, o grafiteiro Diogo Galvão e três artistas de sua equipe farão um mural na fachada da sede do Grupo A TARDE. Serão oito latas de tinta acrílica e 150 sprays espalhados por 342 metros quadrados de duas empenas, como se chamam na construção civil as paredes laterais que não têm portas ou janelas.

O acordo entre o mais antigo grupo de comunicação da Bahia e a Fundação Gregório de Mattos (FGM) marca a tentativa da atual administração municipal de verticalizar os murais, incentivando empresas a inundar paredes dos prédios da região da Avenida Tancredo Neves com os painéis que deslumbram soteropolitanos no Centro Antigo de Salvador, na Comunidade Solar do Unhão, no Rio Vermelho e em bairros periféricos.

As obras de arte, na maioria das vezes, são feitas por uma geração de grafiteiros que começou a se especializar em 2005, quando a gestão municipal passada decidiu combater o picho, considerado vandalismo pelas autoridades públicas.

Com a primeira edição do Salvador Grafita, em 2005, foram contratados 40 jovens para fazer desenhos temáticos, pagando salários para os selecionados. Alguns foram estudar depois na universidade e alguns receberam ajuda inesperada.

No mesmo ano em que o Salvador Grafita foi lançado, jovens da Ribeira e de bairros vizinhos fizeram pichações nos muros e paredes da casa de número 57 da rua Júlio David, onde funciona o Instituto Cultural Brasil Itália Europa (Icbie). O italiano Pietro Gallina, diretor do instituto, não gostou do resultado e chamou os meninos para lhes mostrar livros de arte.

“Eles se encantaram por Caravaggio e alguns fizeram desenhos inspirados nele”, afirma Gallina, que levou sete dos jovens à Itália. “Há desenhos deles em Paris, Roma, Barcelona e Frankfurt”, orgulha-se.

Um dos presentes à viagem foi o atualmente blogueiro e escritor JF Paranaguá, autor do livro A Arte de rua, resgate de intervenções artísticas urbanas em Salvador, lançado em 2017.

A obra reúne registros de 37 anos de observação por parte de Paranaguá, um ex-funcionário da Embasa que aproveitava as andanças pelas ruas da cidade para fotografar pichações que considerava interessantes, como as enigmáticas frases de Faustino, pichadas ainda sob a ditadura militar. Paranaguá tornou-se um dos primeiros a registrar a evolução do grafismo e da arte urbana em Salvador.

Na academia, há restrições ao patrocínio à arte urbana. Alguns professores da Escola de Belas Artes consideram que a subvenção financeira anula a motivação de protesto que originalmente leva um artista de rua a apontar o spray em direção a uma parede.

“Na rua pulsa outra energia, fora do institucional. A urgência do trabalho não vem da encomenda”, afirma a professora Ines Linke, que atua na interface entre arte contemporânea, intervenção urbana e cenografia.

“Meu papel não é incentivar o grafite, é vender o material. Tampouco acho que seja papel do poder público. Mas se não fosse o apoio do governo, o expressionismo abstrato da década de 1950 em Nova Iorque não teria acontecido”, pondera o comerciante Mark Pfohl, dono da Mil Muros, loja de artigos para grafiteiros.

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