Caderno Muito: Cores na cidade

Com a necessidade de conciliar o amor pelos muros com o pagamento das contas, alguns grafiteiros criaram novas formas de trabalho. Pioneira entre as mulheres, Mônica Reis ganha dinheiro fazendo pequenos murais para aniversários e outros eventos, além de aulas. “Depois de obter um certo reconhecimento na mídia, passei a ser chamada para dar workshops para estudantes”, declara Mônica.

Sua inserção no mundo dos grafites foi rápida. Em 2005, aos 23 anos, ela foi ao Largo do Papagaio participar de uma ação promovida por uma marca de sprays. Desenhou em uma parede do largo um coração com o seu nome e, meses depois, viu seu desenho aparecer em uma matéria sobre arte de rua na revista Cadernos do Terceiro Mundo.

A revista deixou de circular no ano seguinte, mas Mônica seguiu e se firmou como uma referência para na luta contra o machismo. “Muitas meninas que viram trabalhos meus na cidade se animaram a fazer também”, diz ela, que no início sofria com a perseguição dos caras, dizendo que não era lugar para mulher, que ela seguia uma modinha e até tentando levar o seu material.

Curiosamente, um de seus trabalhos, na Rua Carlos Gomes, é um mural em homenagem às Muquiranas, bloco de homens que se travestem de mulher e que não são exatamente uma unanimidade entre as feministas. “Meu marido, que também é grafiteiro, sai no bloco e a gente resolveu fazer uma homenagem”.

Conhecido no circuito de arte urbana como Cabuloso, Marcos Costa comemora, no mês que vem, um ano de abertura do Cabuloso Atelier, no Pelourinho. “É um espaço que mistura arte, moda e gastronomia”, explica o artista, que começou a desenhar na escola, ainda garoto, e foi convidado por colegas a integrar a turma que grafitava pelas ruas.

Tour

Outra referência, Eder Muniz descobriu outro jeito de trabalhar com arte urbana. Um tour de três horas, de Castelo Branco até o Centro, em que explica a história dos grafites apresentados e dos autores. “Tenho levado estudantes de universidades americanas. O público daqui muitas vezes paga para conhecer arte urbana na Europa, mas não se interessa pelo que é feito na cidade”, desabafa.

Para a fotojornalista e professora Carol Garcia, co-autora do livro Grafitti Salvador e integrante do coletivo Vai e Faz, que todos os anos promove o Bahia de Todas as Cores, o principal festival de grafite da cidade, “não há como verticalizar sem o apoio de grandes empresas”. Carol acredita que no Brasil apenas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte há um mercado de trabalho consolidado para os grafiteiros.

“O grafite em Salvador tem alcançado uma qualidade internacional. Temos grandes grafiteiros”, atesta o professor da Ufba, Roaleno Costa, especializado em grafite, que vê 10 artistas de primeira linha, sem citar nomes. “O que falta em Salvador é oportunidade para os grafiteiros. Não de cooptação, de domesticação, mas chances de participar de grandes projetos”, diz.

Idealizadora e curadora do Movimento Urbano de Arte Livre (Mural), que em 2016 espalhou nove obras pela Avenida da França, Vanessa Vieira, da Trevo Produções, destaca a experiência “extraordinária” que foi convidar os artistas para produzirem os paineis que transformaram parte do Comércio em uma galeria ao ar livre, mas destaca a dificuldade em levar adiante novos projetos no setor. “Logo depois do edital, muitas empresas nos procuraram, mas quando ouviam sobre os custos, desistiam”, diz Vanessa, lembrando que para que a arte apareça lá no alto é preciso pagar pelo desenho, pela mão de obra e pelos equipamentos alugados.

Um dos casos de sucesso em arte urbana levados em conta pela FGM é a Comunidade do Solar do Unhão, na Avenida do Contorno, onde paredes de escadas e fachadas de casas e bares receberam o colorido de artistas de destaque na cena local, como Bigod, e até de um americano que morou um tempo no bairro.

O artista, que assina como Joel, desenhou o rosto de uma criança sorridente ao lado de uma tartaruga, um presente para a vizinhança que o acolheu. “Nos bairros, costuma haver uma boa relação entre os grafiteiros e os moradores, que se sentem representados de alguma forma”, explica a professora Ines Linke.

Na região da Avenida Tancredo Neves, o futuro da arte urbana está ligado a duas questões: a possibilidade de a FGM conseguir apoio de fabricantes de tintas e o impacto do trabalho de Galvão nas empenas da sede de A TARDE. “A gente está aguardando a repercussão para entrar em contato com outras empresas”, afirma o presidente da FGM, Fernando Guerreiro.

O presidente do Grupo A TARDE, João de Mello Leitão, enaltece a parceria: “Para a gente, isso tem uma grande relevância. Trazer arte para uma área privilegiada”.

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