Caderno Muito: Seres da rua e do mar

É uma casa como qualquer outra. Você entra, anda pelos corredores, é um lar normal. A situação muda, no entanto, quando subimos as escadas em direção ao ateliê. É lá onde a magia de Diogo Galvão acontece. Quer dizer, não exatamente lá. A partir do espaço onde vai pintar é que ele pensa como será a obra, grafite ou pichação, a depender do caso.

As criações maiores, como a que pintará na parede lateral do prédio de A TARDE, e que poderá ser vista da Avenida Tancredo Neves, são as mais desafiadoras. Mas, a seu ver, são as que valem a recompensa: “É impactante demais ver um prédio inteiro pintado. Todo mundo para para ver. A arte de rua tem um poder impressionante”.

Além das imagens que decoram a parede do ateliê, logo se vê por lá um armário cheio de tintas em spray, seu pequeno arsenal para saídas à rua com outros grafiteiros. “Esse armário é um sonho para nós. É como ter uma loja de tinta dentro de casa. Queria ter mais uns 10 desses”, diz ele.

Os sprays sempre estiveram com ele ao longo da vida. Só que de um jeito diferente. Vindo de uma família de artistas visuais, desde pequeno esteve com uma latinha nas mãos. “A diferença é que usava para pintar telas”, explica.

Aos 12 anos já fazia os primeiros desenhos, graças aos ensinamentos de um tio. Daí deixar de experimentar suas criações numa mesa e passar para as paredes foi um pulo. Mas tornar-se o que é foi algo mais complexo.

Foi necessário, primeiro, passar por uma faculdade de administração, onde, de acordo com ele, cursou enquanto vendia quadros. As saídas às ruas passaram a ser frequentes em 2015, quando largou um emprego e apostou no trabalho com os grafites.

“Quando decidi voltar às artes, sabia que precisava dar certo para continuar. Aí vi muita coisa sobre arte de rua, o grafite crescendo e como já sabia usar o spray, decidi investir”, lembra.

Encarou de tudo pelos muros da cidade: de convencer síndicos a permitirem a pintura de seus espaços a bater de frente com gente barra pesada. No fim, os sprays venceram as armas. “O grafite consegue impactar criminosos, polícia, todo mundo. Eles se desarmam”.

Festival

Nas ruas, é como se tivesse encontrado uma família. O grafiteiro Vinícius Vidal mostra essa conexão: “Sempre que possível estamos juntos. No chá de fralda da filha dele pintamos um muro”. Hoje, ambos integram o coletivo que organiza o festival de grafite Bahia de Todas as Cores (BTC), um dos maiores do estado.

Foi em uma das edições do BTC, inclusive, há cinco anos, que os dois se cruzaram. “Fui lá porque queria conhecer quem fazia arte de rua por aqui”, lembra Galvão. Desde então, foram mais quatro edições do projeto, que segue a lógica dos grandes eventos de arte de rua mundial. “Se parar para pensar, a gente dá até mais condições para os grafiteiros que alguns grandes festivais”, avalia Vidal.

Galvão inclusive já participou do UpFest, um dos maiores festivais de Street Art e grafite do mundo, que acontece em Bristol, na Inglaterra. “Foi uma grande emoção ter sido chamado, é uma mostra enorme de reconhecimento do trabalho”, conta. Mas chegar lá não foi fácil: o UpFest não bancava as despesas e precisou tirar do próprio bolso passagens e praticamente todo material de tintas.

O convite veio graças ao mural que considera seu trabalho mais importante, na Avenida Octávio Mangabeira. Com 15 metros de altura, é bem difícil não reparar quando passamos por ele, e completamente preenchido – um aspecto que on artista gosta de ressaltar.

“Não adianta nada pintar um prédio grande se você não usar cada centímetro dele”, defende. De certo modo, é como se a baleia do mural tivesse saído diretamente da orla ali do lado, na Boca do Rio.

O mar, na verdade, é sua grande inspiração e está em praticamente todos os seus trabalhos. Virou sua bandeira. Costumava mesmo retratar toda a vida marinha nas suas obras e isso até lhe rendeu alguns entreveros nas ruas.

Certa vez, traficantes o confundiram com um grupo rival enquanto pintava um muro. “Quando falei que ia pintar peixe, eles pensaram que era uma carpa [símbolo de uma facção] e não queriam deixar. Mas consegui convencê-los”.

Identidade

Do amor pelo mar, surgiu o insight que traria identidade ao seu trabalho: as baleias. Logo percebeu o impacto causado pelos maiores animais do mundo e passou a representá-los artisticamente. Após uma visita ao Instituto Baleia Jubarte, em Mata de São João, foi conquistado definitivamente. “Fomos para o mar, ficamos o dia inteiro esperando elas saltarem e nada. Aí deu o final do dia e não é que gravei o único salto?”, lembra.

Enrico Marcovaldi, um dos diretores do Instituto, viu esse processo de mudança in loco: “Ele viu umas baleias com a gente e aquilo o mudou para sempre”. A partir daí, uniram forças e Galvão realiza por lá oficinas sobre grafite e preservação ambiental.

O trabalho que o muralista vai fazer em A TARDE começa amanhã e a empolgação é evidente: “É uma oportunidade única de visibilidade, tanto para mim quanto para a equipe”. Serão mais três grafiteiros trabalhando com ele para sair o resultado final.

Precisará superar até o medo de altura para chegar ao alto dos 19 metros do prédio. “É muita tensão estar lá no alto e ter que ser preciso o tempo todo”, diz ele. A ideia é resolver a tensão com algumas sessões de massagem para a equipe durante o processo de pintura.

*Sob supervisão do jornalista Marcos Dias

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